RITMO: UMA QUESTÃO DE ESTRATÉGIA
Por Prof. John Hawley
Originalmente publicado no Sportscience.
Reproduzido sob permissão do autor.
Pergunte a qualquer técnico sobre ritmo, seja para um único evento ou por toda uma temporada de competições, e ele responderá que é um componente vital para o sucesso. Pergunte a qualquer atleta sobre a estratégia de ritmo mais apropriada para alcançar o pico de performance em seu evento e ele provavelmente dirá que a desenvolveu na tentativa e erro. Vá forte demais e irá "quebrar" na corrida. Vá muito lento e será "largado" pelo grupo, possivelmente jamais tomando parte na disputa. Na competição de alto nível, existem frequentemente diferenças muito pequenas entre ganhar ou perder. Em Jogos Olímpicos ou Campeonatos Mundiais, a margem entre a glória de uma medalha e o anonimato total é normalmente menos do que um por cento. Dada a importância do ritmo correto em qualquer evento que dure mais do que 30 segundos, a falta de estudo científico sobre como diferentes estratégias de ritmo podem influenciar a performance competitiva é surpreendente.
Em eventos em que o único objetivo do atleta é percorrer uma dada distância no menor tempo possível, o conselho habitual aos competidores tem sido de manter um ritmo constante. Este sentimento foi largamente baseado em um único experimento conduzido há quase 40 anos, no qual três atletas bem treinados (mas certamente não competitivos) foram solicitados a correr 1.200m usando três diferentes estratégias de ritmo: um início rápido, um início lento e um ritmo constante (Robinson et al., 1958). O início rápido levou à pior performance enquanto o ritmo mais constante levou ao melhor tempo. Principalmente como resultado deste único estudo, atletas foram amplamente aconselhados a guardar o maior esforço para o mais tarde possível na corrida.
Mais recentemente, Foster et al., (1993) estudaram os efeitos de diferentes estratégias de ritmo em um contra-relógio ciclístico de 2.000m. Eles fizeram nove ciclistas bem-treinados completar os primeiros 1.000m do contra-relógio a um ritmo pré-determinado (muito lento, lento, ritmo constante, rápido ou muito rápido) e depois completar os outros 1.000m o mais rápido possível. A diferença entre o pior resultado (o de início bem lento) e o melhor resultado (ritmo constante em todo o percurso) foi 4,3%, algo como a diferença entre o primeiro e o décimo-primeiro colocados em uma prova olímpica de perseguição, ou entre o primeiro e o último colocados em uma prova de corrida de média-distância. Foster et al., (1993) concluíram que um ritmo constante era a melhor estratégia para eventos esportivos de média-distância, e que haviam consequências negativas mesmo para pequenas variações nesta estratégia. Evidências científicas adicionais em suporte a esta hipótese vêm da observação do ciclista Chris Boardman, medalha de ouro olímpica, durante um contra-relógio de 80 km em um percurso com ondulações (elevação total de 400m). Por toda a duração da prova, a qual ele venceu com 1:44:49, Boardman sustentou um batimento cardíaco de 178 bpm com um desvio de apenas 5 bpm desta média (Palmer et al., 1994).
Embora uma estratégia de ritmo estável ou constante provavelmente resulte na melhor performance em eventos onde o atleta tem vencer o relógio, correr diretamente contra um oponente pode requerer mudanças no ritmo, em decorrência da tática e estratégia de corrida. Frequentemente estas corridas são vencidas pelos atletas que têm melhor habilidade tática. Por exemplo, nas provas ciclísticas com largada em massa, como o Tour de France, é bastante incomum ver o pelotão girar ao mesmo ritmo durante todo a etapa do dia. Isso ocorre porque ciclistas, seja pedalando pela equipe ou individualmente, estão quase sempre no vácuo de outro competidor, ou girando em grupo. Além disso, ocorrem mudanças de ritmo quando grupos de ciclistas "atacam" uma colina, ou tentam escapar do pelotão (Palmer et al., 1994). Provas de corrida em distância também são uma questão de técnica e tática, com corredores fazendo uso de suas vantagens competitivas (ex.: um pique na chegada) ou das condições do percurso (ex.: um trecho com elevações) para se distanciar dos competidores em momentos estratégicos.
Para investigar os efeitos de duas estratégias de ritmo diferentes sobre a performance em ciclismo de resistência, nós estudamos os efeitos comparativos de duas sessões de ciclismo (uma a ritmo estável, constante e outra a ritmo estocástico, variável) sobre a performance em um contra-relógio subsequente (Palmer et al., 1997). Seis ciclistas altamente treinados completaram duas horas e meia de ciclismo, seguidas de um contra-relógio de 20 km. As sessões empreendidas antes do contra-relógio tiveram a mesma média de potência e velocidade. Durante uma sessão os ciclistas pedalaram a ritmo constante por 150 minutos. Na outra, eles variaram o ritmo dentro de um faixa de 12% acima e abaixo desta média. A seus esforços, constantes ou variáveis, seguiu-se imediatamente o contra-relógio, durante o qual eles percorreram os 20 km no menor tempo possível. Apesar da potência média ser equivalente nas duas sessões durante 2 ½ primeiras horas de ciclismo, no contra-relógio subsequente à sessão de ritmo constante houve uma melhora significativa no tempo para completar os 20 km. Todos os seis ciclistas foram mais rápidos em média 1'36" sob estas condições. Estes resultados de laboratório estão em linha pesquisas anteriores.
Uma grande diferença entre condições de laboratório e de campo é que, em muitas provas, o atleta bem sucedido dita eventuais mudanças de ritmo de forma a contemplar suas próprias habilidades e explorar as fraquezas do oponente. O vencedor é o primeiro atleta a cruzar a linha de chegada, e não o mais rápido em contra-relógio. Cientistas esportivos deveriam elaborar estudos que examinassem a performance em testes com ritmo variando como em eventos reais. As conclusões destes estudos poderiam ser mais úteis para treinadores e atletas.
O Prof. John Hawley é Ph.D. pela Escola de Medicina da Univ. da Cidade do Cabo, África do Sul, e atualmente leciona a cadeira de Biologia Humana e Ciência do Movimento na RMIT University em Melbourne, Austrália. Publicou mais de 150 artigos e estudos científicos sobre medicina do esporte e do exercício, incluido um volume sobre fisiologia e bioquímica do exercício para o Comitê Olímpico Internacional. É co-autor do livro "Peak Performance: Training and Nutritional Strategies for Sport", do qual este artigo foi extraído.
E-mail: john.hawley@rmit.edu.au
Referências:
Hawley, J.A. and Burke, L.M. (1998). Peak Performance: Training and Nutritional Strategies for Sport. Sydney: Allen and Unwin.
Foster, C., Snyder, A.C., Thompson, N.N., Green, M.A., Foley, M., Schrager, M. (1993). Effect of pacing strategy on cycle time trial performance. Medicine & Science in Sports & Exercise, 25, 383-388.
Palmer, G.S., Hawley, J.A., Dennis, S.C., Noakes, T.D. (1994). Heart rate response during a 4-d cycle stage race. Medicine & Science in Sports & Exercise, 26, 1278-1283.
Palmer, G.A., Noakes, T.D., Hawley, J.A. (1997). Effects of steady-state versus stochastic exercise on subsequent cycling performance. Medicine & Science in Sports & Exercise, 25, 684-687.
Robinson, S., Robinson, D.L., Mountjoy, R.J. and Bullard, R.W. (1958). Influence of fatigue on the efficiency of men during exhausting runs. Journal of Applied Physiology, 12, 197-201.
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