COMO O GUGA CHEGOU LÁ!
Por Fábio Silberberg
Hoje em dia o Brasil se orgulha de um fenômeno mundial chamado Guga! A cada semana que passa este nosso jogador - e agora ídolo - dá demonstrações incríveis, ora de sua capacidade de jogar e vencer entre os melhores do mundo e de ficar no topo do disputadíssimo ranking mundial do tênis, ora de cavalheirismo, profissionalismo e principalmente humildade.
Recentemente, sua quase não participação no jogos olímpicos de Sidney causou um desgaste desnecessário para todos os lados envolvidos mas o bom senso predominou no final. Com certeza quem ganhou com isso foi o esporte e o tênis brasileiro que terá suas cores muito bem representadas nos Jogos Olímpicos.
O torneio de tênis nas olimpíadas, será jogado em um piso rápido, o mesmo piso onde Guga foi derrotado de uma forma um tanto quando surpreendente na primeira rodada do US Open, em Nova York. Mesmo assim não podemos esquecer que Guga traz consigo um título muito recente e importante que foi o torneio de Indianápolis nos EUA. Na ocasião ele venceu na final o russo Marat Safin, que em seguida venceu o US Open. Com isso Guga provou que pode alcançar vitórias não só em quadras de saibro como também em quadras de cimento rápido.
Hoje o Guga é um jogador amadurecido e está no topo de sua forma com apenas 24 anos recentemente completos. Vendo isso acontecer tão rápido, muita gente pergunta como o Guga chegou lá, no topo do ranking, lugar que nenhum outro brasileiro jamais chegou.
A carreira profissional no tênis e o caminho de um tenista até o topo do ranking é duríssimo. Agora muito mais difícil que a subida é a permanência do jogador no topo do ranking devido à constante pressão que as condições do próprio circuito e as regulamentações do sistema de ranking proporcionam, assim omo a necessidade constante de estar sempre em forma e vencendo durante as 52 semanas do ano.
Guga começou a jogar logo cedo e até os 12-13 anos era uma promessa como outras muitas que já tivemos no Brasil. Com apenas 15 anos de idade o nosso atual número um do mundo já tinha um treinador sério e linha dura em um esquema quase que exclusivo. Larri Passos, soube com muitos méritos e competência colocar este talento para treinar forte traçando e conquistando metas concretas sem as distrações que um adolescente normal tem na sua fase de amadurecimento.
Por sorte o Guga também contou com outros talentos juvenis de sua época que junto com ele treinavam e viajavam para disputar os melhores campeonatos juvenis nacionais e internacionais. Esta equipe tinha uma forte empresa como patrocinadora, e o próprio Larri Passos como treinador. Com isso o jogador tinha uma estrutura séria para puxa-lo e permitir que ele jogasse e viajasse sem preocupações financeiras.
Jovem e com um jogo agressivo mas ainda um pouco cru, Guga passou rapidamente do juvenil para o circuito profissional antes mesmo de completar 18 anos. Nesta fase ele já dava mostras de seu talento e conquistava vitórias contra jogadores mais fortes e experientes jogando no difícil mundo dos circuitos satélites, campeonatos divididos em quatro semanas corridas onde a pontuação é a mais baixa e a premiação a mais pobre que existe no tênis masculino.
Durante esta fase importantíssima dentro da carreira do jogador, eu vi com meus próprios olhos quando Guga, ganhando ou perdendo, sempre estava na quadra depois do jogo para treinar duro e certo procurando corrigir os erros que cometera na partida enquanto todos os outros jogadores já tinham ido embora para o hotel descansar. Cedilho pelas manhãs, ele começava o dia correndo e fazendo a sua preparação física, sempre ao comando sob os olhos de Larri e sempre com alegria e bom humor, curtindo o trabalho que estava fazendo.
Rapidamente Guga conseguiu melhorar o seu ranking e passar para o segundo escalão do tênis, ranqueado entre os 180 melhores do mundo. Com isso adquiriu o direito a disputar os torneios semanais com boa pontuação e premiação. Isso facilitou muito na programação do calendário, apesar que sempre a maioria dos pontos tinha que ser conquistada fora de casa pela escassez de torneios no Brasil. Guga estava estruturado para seu próximo pulo quando o seu treinador se tornou exclusivo e, com a assinatura de um novo patrocinador, lhe deu a segurança e independência financeira para viajar para qualquer parte do mundo quando fosse necessário, sempre levando junto o seu técnico e amigo Larri.
Ele foi somando vitória atrás de vitória e, já ranqueado entre os 100 melhores do mundo, se consagrou internacionalmente no ano de 1997 vencendo o seu primeiro grande torneio, nada menos do que um título no saibro de Roland Garros. Guga venceu de forma incontestável batendo em seu caminho 4 ex-campeões deste torneio.
Mesmo assim muitos ainda duvidavam de sua conquista dizendo que isso teria sido uma semana de sorte e Roland Garros um torneio que ele jamais poderia conquistar novamente.
Guga continuou trabalhando duro, arriscou-se no calendário dos anos seguintes procurando jogar mais torneios em quadras rápidas com o objetivo de melhorar ainda mais e se tornar um jogador realmente completo.
Este ano Guga entrou em Roland Garros como favorito absoluto já com títulos de campeão dos maiores torneios em quadras de saibro do mundo como o Aberto da Itália, Monte Carlo e o Aberto da Alemanha. Com partidas históricas Guga levou o bi-campeonato saindo de adversidades incríveis, mostrando além golpes excepcionais, muita técnica, força física, muita garra e grande poder de concentração.
Concluindo vemos que ele desenvolveu o seu potencial espetacular se aproveitando de uma estrutura que ainda não é uma realidade para os brasileiros mas com o seu exemplo e sua lição brevemente pode vir a ser. O Guga é um expoente, um gênio e na verdade um grande atleta que nos mostra com resultados, com sua simplicidade, humildade e principalmente com muita seriedade e trabalho, que é possível chegar lá.
Graças a suas conquistas espetaculares, o Brasil vive o melhor momento no tênis desde que este esporte foi inaugurado em nossos clubes. Agora é a hora certa para as instituições responsáveis pelo tênis juntamente com a conscientização de empresários, promotoras de eventos, treinadores e os próprios jogadores, investirem forte em uma estrutura concreta e real. O ídolo que nos faltava para que este esporte pudesse formar uma escola como existe nos EUA, na Alemanha, na Espanha e na Suécia agora já temos de sobra. O Brasil tem condições e talento de sobra para formar novos campeões que podem e devem seguir os passos do melhor tenista do mundo na atualidade, que independente de seu resultado nas olimpíadas, já mostrou que vale ouro!
Fábio Silberberg foi tenista profissional até 1996, tendo defendido o Brasil na Copa Davis/95 e participado de 7 torneios Grand Slam. Atualmente é responsável técnico pelo tênis infanto-juvenil do Club Athletico Paulistano-SP e preparador técnico da tenista Vanessa Menga.
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E-mail: faberg@hotmail.com
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