NATAÇÃO E AS OLIMPÍADAS
Por Prof. William Urizzi de Lima
Quando chegar setembro e as primeiras provas de natação começarem a ser disputadas em Sidney, as expectativas de resultados de alto nível serão grandes e com certeza nomes como Ian Torpe, Michael Klim, Suzan O'Neil, Jenny Thompson, Gustavo Borges, Fernando Scherer e outros atrairão olhares do mundo todo. Nunca a natação teve tanta repercursão na mídia como nesses últimos anos, impulsionada principalmente pela qualidade técnica e ótimas performances obtidas pelos nadadores. Jenny Thompson, o grande nome da natação americana, por exemplo, no ano passado superou o recorde da prova dos 100 metros borboleta que persistia há 18 anos, o recorde mais antigo da natação mundial.
Mas a grande estrela da natação do momento é o australiano Ian Torpe, um nadador de 16 anos que durante as Olimpíadas estará com 17 anos e que na temporada passada assombrou o mundo com os
recordes mundiais nos 200 e 400 metros nado livre com uma larga vantagem sobre os adversários. Muitos jornalistas, na maioria australianos, levantaram hipóteses de Torpe igualar Mark Spitz, nadador americano que, em Munique '72, conquistou 7 medalhas de ouro.
Creio que esta possibilidade, se não remota, é impossível. Analisando a situação e comparando as provas de Spitz e Torpe, observamos que o primeiro nadou uma composição de provas diferentes fisiologicamente das que Torpe nada. Enquanto Spitz venceu 4 provas individuais mais próximas fisiologicamente - provas de velocidade e meio fundo e de estilos diferentes (100/200 livre e 100/200 borboleta) - o australiano não tem muita variação de nado. Torpe domina os nados livre e para vencer os 100 metros terá que prejudicar os 400 metros, que é a sua melhor prova. Sendo assim, para conquistar 4 medalhas individuais Torpe terá que vencer os 100, 200, 400 e 1.500 livre, provas de grandes variáveis fisiológicas. Não acredito que consiga, devido às diferenças de treinamento e preparo fisiológico exigido para cada prova.
O motivo que levou o público amante do esporte a criar grandes expectativas diante de um evento como as Olimpíadas não é difícil de explicar, pois atualmente o esporte é impulsionado e motivado pela força do Marketing.
Na verdade, o esporte olímpico passou por 3 fases. A primeira fase foi a do amor ao ideal olímpico, ao esporte ou, como muitos jornalistas esportivos costumam denominar, do amor a camisa. Na natação, um ótimo exemplo é o de Maria Lenk, uma das primeiras nadadoras brasileiras olímpicas, que na viagem às Olimpíadas de Los Angeles na década de 20 levou na bagagem sacas de café para custear as despesas. A segunda fase foi a política, onde os países desejavam mostrar o poder através do esporte. Iniciou-se em Berlim '36, com a idéia de Hitler de sediar os Jogos Olímpicos, mas foi derrotado por um negro, Jesse Owens, que venceu a prova dos 100 rasos. A fase política findou-se após os Jogos de Seul, coincidindo com a queda do Muro de Berlim. O que estamos vivendo desde as Olimpíadas de Barcelona é a "Era do Marketing", onde os atletas olímpicos recebem ótimo apoio financeiro e estrutural para obtenção de performances significativas.
Atualmente a natação é movida por altos investimentos e apoios aos atletas. A FINA (Federação Internacional de Natação Amadora) dá prêmios de US$ 15 mil aos nadadores que quebram recordes mundiais em piscina de 25 metros ou 50 metros. A Confederação de cada país também colabora com
prêmios, além de ótimos contratos com os patrocinadores. Alguns contratos versam sobre premiação para medalha de ouro, prata ou bronze nas Olimpíadas.
Mas o Marketing trouxe não somente benefícios diretos para os atletas como também para a melhora do nível de treinamento, condicionamento e do conhecimento científico. Atualmente os melhores nadadores estão cercados de excelentes profissionais das áreas de periodização do treinamento, medicina esportiva, psicologia, nutrição e biomecânica. Este grupo de profissionais é denominado de equipe multidisciplinar. Esta idéia não é nova, foi criada durante a predominância politica na Alemanha Oriental e Rússia. Uma grande diferença desta estratégia é que atualmente a equipe multidisciplinar tem um ótimo suporte financeiro.
Atualmente, na natação, a Austrália é o país que melhor utiliza a equipe multidisciplinar e com grandes investimentos. Observei durante o Campeonato Mundial de Natação realizado em Hong Kong em abril de 99 que, para uma equipe de 35 nadadores, os australianos levaram 25 profissionais do grupo multidisciplinar, enquanto os alemães e russos levaram no máximo 8. Os resultados surpreendentes da natação australiana na temporada de 99 e com certeza durante as Olimpíadas de Sidney são devidos em grande parte ao planejamento, à aplicação, ao aproveitamento dos talentos, à equipe multidisciplinar e ao grande suporte financeiro.
Na natação de hoje, a grande preocupação dos integrantes da equipe multidisciplinar é estudar o volume (metragem) e a intensidade, assim como os processos de recuperação entre os treinamentos de volume e intensidade realizados pelos nadadores. Através de exames de sangue e de composição corporal detecta-se o nível de uréia, o qual, quando alterado, indica um processo de fadiga ou o nível de água dentro da célula (intra-celular) ou fora da célula (extra-celular), significando que o atleta está sem a hidratação ideal. Por esses motivos é que a natação à cada Olimpíada torna-se mais excitante.
O Prof. William Urizzi de Lima é técnico de natação da Seleção Brasileira Feminina e do C.R. Vasco da Gama, professor da disciplina Natação nas Faculdades Metropolitanas Unidas-SP (FMU) e na Unicid, e diretor da WA Assessoria Esportiva.
WA Assessoria Esportiva: (0xx11) 3272-9103
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